“Vemos na escola o potencial de desconstruir preconceitos”, destaca Larissa Gaspar

“Vemos na escola o potencial de desconstruir preconceitos”, destaca Larissa Gaspar

A violência no ambiente escolar foi debatida nessa quarta-feira,21, durante Audiência Pública na Câmara Municipal de Fortaleza. Apesar de há mais de 30 anos o Brasil ter se comprometido com a Organização das Nações Unidas (ONU) a combater a discriminação contra a mulher e a desigualdade de gênero no ambiente escolar, o tema ainda é um desafio.

Autora da iniciativa, a vereadora Larissa Gaspar (PPL), destacou a necessidade da discussão. “A escola como um espaço de formação de valores e de convivência entre pessoas que representam a diversidade que é nosso país, é um espaço de violência e intolerância. Mas vemos na escola o potencial de desconstruir o preconceito, o racismo, o machismo, a lgbtfobia, a intolerância religiosa, o preconceito contra estudantes com deficiência. Isso tudo é muito sério e se faz necessário dialogar desde cedo com as crianças e os adolescentes sobre isso para que elas se tornem adultos que saibam conviver harmonicamente com as diferenças”.

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A farmacêutica Maria da Penha, que dá nome à Lei que pune a violência contra a mulher no Brasil, reforçou que a Educação é o caminho. Mundialmente conhecida após lutar por justiça depois de ser vítima de violência doméstica, a cearense vê pouco interesse dos gestores pelo tema “combate à violência contra a mulher” e defende investimento na Educação.”Eu espero que quando a Lei completar 20 anos, todos os municípios tenham condições de dar acesso à uma vida digna e com respeito para mulheres porque sua população teve à uma Educação Não Sexista e Sem Discriminação”, disse. Maria da Penha destacou que o instituto que leva seu nome tem parcerias técnicas com universidades, algo que pode se expandir para outros setores. Dez anos depois da Lei, criada em 1997, muitos avanços, mas também desafios, como a criação de rede de retaguarda para mulheres vítimas da violência em cidades do interior.

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Coordenador Pedagógico do curso de aperfeiçoamento em Direitos Humanos da Universidade Federal do Ceará, o professor Marcelo Natividade já ouviu diversos relatos chocantes. “Já presenciei uma professora da rede pública justificando a violência física contra um menino, dizendo ‘ele sabia muito bem que havia alunos homofóbicos na escola'”. Para o professor, as políticas educacionais estão sob ataque de propostas como o Escola Sem Partido e a retirada do termo gênero do Plano Nacional de Educação. “Há propostas amparadas no argumento de que cabe às famílias educar as crianças sobre o respeito e a diversidade sendo que em muitos lares a família é violadora de direitos e intolerante”, disse.

A professora Celecina Sales ressaltou o papel do movimento feminista nas grandes conquistas de direitos das mulheres no século XX, e fez críticas à Reforma do Ensino Médio.”Essa discussão implica sobre discriminação e direitos e estamos vivendo um momento em que todos os dias temos direitos retirados. Me preocupa a onda de ódio e intolerância”, afirmou. Para pesquisadora em Educação, o conservadorismo chega às escolas atingindo servidores e estudantes. “A escola reproduz a diferença de gênero, desde a educação infantil ao ensino médio nas brincadeiras, na separação das meninas que ficam para arrumar a sala enquanto os meninos vão para o intervalo. Parece natural que futebol é coisa só de menino, que a matemática é pra eles, é coisa de homem”, explicou.

Para o mestre em História Social pela UFC, Hilário Ferreira, quando o Brasil deixa de cumprir a Lei 10639 , que obriga o ensino da história e cultura africana, o país contribui para que o racismo se propague. Ele contou sobre atividades em livros didáticos que consideradas racistas. ” Uma delas ligava determinadas profissões à pessoas e tinha a foto de uma negra ligada à limpeza, reforçando estereótipos de que o lugar do negro é no futebol, no serviço doméstico”, destacou.

“Desde cedo os papéis sociais dos meninos e meninas estão sendo desenhados, sendo que eles participam de atividades mais coletivas e com um aspecto mais cultural e econômico. Já é desigual”, afirma Joelma Gentil, mestra em Educação Brasileira e integrante do Conselho Municipal dos Direitos LGBT. Para Joelma, outro ponto que destaca essa desigualdade está na flexão dos artigos que em geral tendem para o gênero masculino “mesmo sendo uma diretora a placa diz ‘diretor”, ainda que sejam professores e professoras na porta está escrito ‘sala do professor'”.

A gerente da Célula de Programas e Projetos da Secretaria Municipal de Educação, Cintia Eufrásio, relatou a interferência do discurso conservador no conteúdo do Plano Municipal de Educação. “Nós tivemos três pré-conferências territoriais, uma conferência municipal, o prefeito Roberto Cláudio enviou o Plano na íntegra para a Câmara Municipal de Fortaleza. No entanto, houve um lobby para a retirado dos termos gênero e diversidade do Plano”. Ela destacou ainda que as escolas são o poder público na comunidade, o que requer um compromisso com a realidade local. “A escola tem um papel social muito importante, para além do intelectual. Alguns casos de violência citados pela Larissa Gaspar no início da audiência mostram esse universo que precisa ser contemplado dentro das escolas”, finalizou.